Quando a farda não sai de casa
Por Caroline Martins
Este texto é uma reflexão muito particular, fruto de conversas e observações cotidianas, mas que despertou em mim uma vontade genuína de aprofundar o tema futuramente. Pretendo buscar meios legais e científicos para compreender melhor essa realidade e trazer novas reflexões.
Outro dia, saindo da minha rotina de exercícios pela manhã, resolvi ir à academia no período da tarde. E, como nada na vida é por acaso, entendi que precisava ter ido mesmo. Lá encontrei uma amiga que eu não via há algum tempo. Ao cumprimentá-la, senti que ela precisava falar — e ali mesmo conversamos.
O que percebi foi uma exaustão física e mental evidente. Entre muitos fatores que contribuíam para aquele estado, um deles era o peso de estar casada com um agente público da segurança. Não falo aqui de violência doméstica ou de qualquer tipo de abuso. Falo do peso emocional que é, atualmente, dividir a vida com um servidor da segurança pública.
Saber que o marido sai todos os dias para trabalhar colocando sua própria vida em risco, deixando sua família em casa, já é, por si só, uma fonte constante de tensão. Soma-se a isso a sensação de desvalorização institucional e social — quando o Estado não oferece condições adequadas de trabalho e quando a população, muitas vezes, já não reconhece o esforço e o risco envolvidos nessa profissão.
Mas o que mais me marcou naquela conversa foi perceber que o sofrimento não estava apenas no risco físico. Estava no que vinha depois.
Quando ele chega em casa, a farda não sai completamente.
Ela permanece no olhar atento demais.
No sono interrompido.
Na irritabilidade que surge sem explicação aparente.
No silêncio que ocupa a mesa do jantar.
E quem convive com esse profissional começa, muitas vezes, a viver nesse mesmo estado.
A família passa a pisar em terreno sensível.
Evita certos assuntos.
Interpreta silêncios.
Tolera explosões.
Acolhe frustrações.
Quando trago no título que “a farda não sai de casa”, refiro-me ao fato de que essa carga emocional ultrapassa os muros do quartel ou da delegacia. Ela atravessa a porta de casa junto com o profissional.
Temos, dentro dos lares, homens abatidos, frustrados, sobrecarregados por jornadas excessivas. São horas extras para suprir a falta de efetivo, horas extras para complementar um salário defasado, horas extras para tentar garantir dignidade à própria família. E toda essa sobrecarga não fica restrita ao ambiente de trabalho — ela é dividida, sentida e, muitas vezes, sofrida por quem está ao lado.
Essa tensão pode se manifestar de diversas formas: silêncios prolongados, distanciamento afetivo, explosões repentinas, irritabilidade constante ou, em outros casos, uma tristeza profunda e persistente.
Do ponto de vista psicológico, o que observamos em muitos profissionais da segurança pública são sintomas compatíveis com quadros descritos no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), como: Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), especialmente em profissionais expostos repetidamente a situações traumáticas; Transtornos de Ansiedade; Transtornos Depressivos; Síndrome de Burnout (atualmente reconhecida como fenômeno ocupacional pela CID-11, mas amplamente estudada na Psicologia). Todos esses amplamente conhecido e mencionados nos afastamentos atualmente.
A exposição contínua a situações de risco, violência, morte e tensão pode gerar um estado de hipervigilância constante. O corpo permanece em alerta, mesmo fora do serviço. Esse estado prolongado de ativação fisiológica pode impactar o sono, o humor, a capacidade de regulação emocional e as relações familiares.
Além disso, o estresse crônico afeta o funcionamento do sistema nervoso e pode levar a dificuldades na comunicação conjugal, aumento de conflitos familiares e afastamento emocional. Muitas famílias passam a viver também em estado de alerta, compartilhando indiretamente esse peso.
Observando outras histórias de conhecidos, amigos, pois conheço muitas pessoas dessa área, confesso que é assustador perceber como essa categoria, já considerada de alto risco para sofrimento psíquico, vem sendo negligenciada em termos de cuidado emocional e financeiro. Eles vivem sob tensão constante. E quando o ambiente de trabalho é disfuncional, pouco estruturado e desvalorizado tanto estrutural, quanto financeiro o impacto psicológico se intensifica.
Precisamos urgentemente falar sobre isso.
Precisamos falar sobre saúde mental na segurança pública.
Precisamos falar dessa desvalorização financeira e sobrecarga de trabalho.
Precisamos refletir sobre qual é o papel da rede de apoio e da própria instituição nesse processo.
E muitos são os questionamentos que ficam dessas observações:
Qual é o papel real da família nesse contexto?
Como manter-se saudável emocionalmente e continuar sendo um bom profissional quando não há cuidado, suporte ou reconhecimento?
Quando a farda não sai de casa, quem acolhe quem?


Excelente texto! Esse é realmente um assunto de extrema importância para saúde mental, física e para um trabalho mais fluido! Acredito que em todos os casos, negligenciado pelos estados! Contudo, precisa ser mudado essa realidade urgentemente, os servidores estão doentes.
ResponderExcluirParabéns pelo texto!