A idade que nos disseram para ter
Este texto é de autoria de Caroline Martins dos Reis. Todos os direitos reservados.
De uns tempos para cá, a idade tem me deixado encucada. Não diria exatamente preocupada, mas inquieta. Ela tem aparecido nos meus pensamentos com uma frequência que antes não existia, como se cada novo aniversário viesse acompanhado de uma lista silenciosa de perguntas.
Nós, mulheres, talvez muito mais do que os homens, crescemos aprendendo que existe um tempo certo para tudo. Existe a idade de namorar, de casar, de estudar, de trabalhar, de ter filhos. Existe o momento ideal para construir uma família, consolidar uma carreira, alcançar estabilidade. E, quando alguma dessas etapas acontece fora da ordem ou simplesmente não acontece, parece que sentimos que saímos do roteiro que escreveram para nós.
Sem perceber, passamos anos tentando cumprir esse script. E, por mais independentes, decididas ou conscientes que sejamos, em algum momento nos pegamos fazendo perguntas que talvez nem fossem nossas: "Será que estou ficando velha para isso?" "Será que já passou da hora de começar?" "Será que já deveria desistir?" "Será que fiz as escolhas certas?"
Mas quem decidiu que a idade determina o que podemos viver?
Quem escreveu essa regra invisível que nos diz quando devemos sonhar, recomeçar, mudar de profissão, apaixonar-nos ou simplesmente experimentar algo novo?
Recentemente, me vi assustada com a idade que está chegando. Questionei minhas escolhas. Levei para terapia. Pensei se fazia sentido está finalizando uma nova formação aos 45 anos. Perguntei a mim mesma se realmente estou em paz por não ter tido filhos. Olhei para quem sou hoje e tentei reconhecer a mulher que me tornei. Percebi que talvez a maior dificuldade não seja envelhecer. O difícil é lidar com todas as expectativas que carregamos sobre o que deveríamos ter feito até aqui e não é nada leve.
Vivemos em uma sociedade que cobra das mulheres juventude eterna, mas também maturidade. Quer que sejamos experientes, mas nunca velhas. Aos 30, muitas acreditam estar no auge, eu também acreditei. Aos 40, algumas já começam a ser chamadas de "coroas", como se uma década fosse suficiente para apagar desejos, sonhos, beleza ou potência. Curiosamente, enxergar uma mulher de 40 como velha talvez revele muito mais sobre quem julga do que sobre quem está sendo julgada.
E talvez esteja tudo bem não seguir o roteiro. Está tudo bem não ter formado uma família antes dos 40. Está tudo bem mudar de carreira quando todos esperam estabilidade. Está tudo bem voltar a estudar, descobrir novos interesses, frequentar novos lugares, construir novos projetos, ressignificar sonhos. Está tudo bem viver espaços ocupados por pessoas mais jovens, desde que isso aconteça sem a necessidade de competir com elas, mas com a liberdade de ser quem somos hoje.
A maturidade não apaga a nossa vitalidade. Ela não diminui nossa curiosidade, nossa paixão pela vida, nossa capacidade de amar ou de desejar. Pelo contrário, muitas vezes, ela nos oferece algo que a juventude ainda não conseguiu: liberdade.
Liberdade para dizer "não". Liberdade para mudar de ideia. Liberdade para deixar de viver para agradar aos outros. Liberdade para entender que não existe atraso quando estamos vivendo a nossa própria história.
A idade cronológica marca o tempo que passamos no mundo. Mas a forma como habitamos e vivemos esse tempo depende muito menos do calendário e muito mais da disposição de continuar vivendo. Envelhecer é inevitável. Envelhecer antes do tempo, porque deixamos de viver com medo da idade, talvez seja a única velhice que realmente deveríamos temer.
Enquanto sigo nas minhas próprias encucações, desejo aprender a olhar para cada nova idade não como uma perda, mas como uma possibilidade. E desejo que nós, mulheres, possamos nos libertar da obrigação de cumprir prazos que nunca escolhemos. Que possamos viver cada fase com a coragem de quem entende que a vida não acontece quando atingimos a idade "certa", mas quando decidimos estar inteiras nela.
Lembrete: Só não prometo que será uma tarefa fácil.


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